Minimalismo em prática

1193779_39725298

Temos o capitalismo como sistema econômico. Com isso o consumismo faz parte do nosso dia-a-dia. Somos bombardeados com propagandas que dizem que para sermos plenamente felizes precisamos do produto “X”. Para ficarmos bonitos precisamos de todos os perfumes do mundo; maquiagem; roupas da moda. Carros. Gadgets. Sapatos. Precisamos também conhecer os restaurantes caros. As baladas que bombam. Os shows de 500 reais. Comprar, comprar e comprar. Só que por quanto tempo dura essa felicidade? Os passeios caros são realmente mais divertidos do que outros que você pode gastar pouco ou nada?

Quando decidi mudar de vez a minha vida me vi com pouquíssimo dinheiro. A alternativa era trabalhar em algo que não gostava ou aprender a viver com pouco. Foi assim que conheci o estilo de vida minimalista.

Minimalismo para quem não conhece na verdade é um movimento que tem como base usar poucos elementos para se expressar. Isso na área científica, artítisca e cultural. Com esse movimento surgiu um estilo de vida. Pessoas dispostas a viver com o necessário. Cansadas de comprar (as vezes até compulsivamente), de ver que a felicidade durava pouco, os bens materiais ocupavam espaço e geravam dívidas. Que viram que da pra viver com menos, bem menos.

Agora, o que é o necessário? Essa é uma resposta bem pessoal. A graça é realmente você se perguntar a todo instante se certa coisa é realmente necessária na sua vida. Pensando apenas na parte econômica (porque o minimalismo é muito mais que isso) já vi minimalistas que tem 10 peças de roupas e outros que tem 100. Então não significa ter pouca coisa de tudo. Posso ter 3 sapatos, só que quero ter 70 livros. Não preciso me livrar de tudo e sim gastar meu dinheiro com aquilo que realmente importa para mim.

E aí começa todo um caminho de autoconhecimento. No meu caso eu parei de comprar roupa e maquiagem. Livros passei a pegar emprestados. Passeios eu comecei a fazer os gratuitos. Quando vi eu precisava de tão pouco que o dinheiro que eu tinha para o mês era mais do que o suficiente. Não, não deixei de sair. Escolhi bares com preços acessíveis. Shows em parques. Cinemas baratos. Amigos em casa. Tem uma multidão de coisas para fazer por aí com preço bom.

No fim a conta é positiva. Gastando pouco, você vai precisar de menos dinheiro e assim tem a oportunidade de testar outras coisas. Mudar sua vida. Escolher outros rumos. Acima de tudo, ver o valor de pequenas coisas.

“O passado” um filme do Asghar Farhadi

Le-passé-The-Past-crítica do filme

Esse drama francês do iraniano Asghar Farhadi (o mesmo de “Separação”) é praticamente impossível descrever a sinopse porque não é sobre uma história e sim sobre os personagens. Gosto de filmes assim porque são possíveis de se desenvolver mais já que retratam apenas um período.

Nesse filme são poucos dias, mas são o suficiente para conhecer cada personagem e traçar na sua mente como foi o passado e como será o futuro de cada um, sem nunca descobrir o que realmente aconteceu.

Os personagens principais são quatro: Ahmad, Marie, Samir e Lucie. Resumidamente: Ahmad depois de quatro anos retorna para Paris para assinar o divórcio com Marie e reencontrar suas duas filhas de criação (entre elas Lucie). Quando chega na cidade descobre que Marie deseja se casar com seu namorado Samir. Parece simples né? Só que aos poucos somos apresentados a uma complexidade de eventos.
Como o filme é calmo e longo temos tempo suficiente para imaginar como reagiríamos naquelas situações e foi exatamente isso que fez com que a história não saísse da minha cabeça.

Percebemos no desenrolar da trama que todos os personagens têm segredos e sentimentos mal resolvidos. Chega a ser trágico como cada um se engana a sua maneira para não enfrentar os problemas que têm mais medo. Cheguei por alguns segundos a julgar um dos personagens: “como não percebeu isso antes?” ou “por que escondeu isso todo esse tempo”. Só que lembrei o quanto todos nós fazemos isso.

Quantas vezes nos refugiamos em nossas próprias ilusões? Passei por situações em que queria tanto acreditar que até parecia verdade e me surpreendi quando tudo desmoronou, afinal nunca tinha existido. Não significa que somos fracos, apenas que não estamos prontos. A vida muda muito rapidamente e nós também desejamos pular etapas, enxugar o choro logo e voltar para a batalha. Só que as vezes o necessário é sentir a dor, enfrentar (e sentir) o medo, para então definir o próximo passo com um pouco mais de certeza.

Além disso pela presença de personagens com idades diferentes, temos conflitos diversos. Lucie é vista em boa parte da trama como uma adolescente irritada e nada compreensiva, até que a trama volta-se para ela e temos a chance de entender (e relembrar) que os dramas adolescentes nem sempre são tão simples e bobos. Existe todo um peso difícil de administrar nessa época somado com a falta de diálogo.

Um dos personagens que seriam secundários o pequeno menino Fouad, filho de Samir, nos surpreende. Todas as cenas a qual aparece nos faz refletir da necessidade da família ser estruturada e de saber explicar para as crianças as adversidades enfrentadas ao invés de acreditar que elas não percebem (e sofrem) com os tumultos do mundo adulto.

Acredito que o que torna um filme bom é exatamente isso: A nossa própria reflexão.

Campanha “Um é muito”

oneis2many_list_1
Uma campanha está sendo feita pelo governo americano para diminuir o número de estupros e abusos contra mulheres, especificamente jovens, estudantes e mulheres entre 16-24 anos. Nela é abordado coisas que deveriam ser básicas e óbvias. De que a mulher NUNCA tem culpa e não deve em hipótese alguma ser culpada. Que quando a vítima não diz SIM ou não tem como dizer não, não significa que ela consentiu.
Logo no começo do vídeo diz que os abusos ocorrem em festas, faculdades, colégios e bares. Só que o número de casos dentro de casa por pessoas conhecidas é alarmante. A violência sexual está perto de nós e não apenas no caso clássico de beco escuro e uma arma na sua testa. O abuso acontece por familiares, amigos, namorados, maridos. Pessoas que você conhece e confia.
O dolorido desses assuntos é que sempre nos deparamos com comentários de homens reclamando “e os homens? homens também sofrem estupro”, “as mulheres também estupram, por que ninguém fala isso?”, “os homens sofrem”. Primeiramente o video da campanha em nenhum momento disse que “homens não são estuprados”. No próprio site eles explicam o objetivo da campanha, mostram os dados das ocorrências e terminam com “apesar de homens serem um número menor de sobreviventes, não são menos importantes”. E por que o foco são as mulheres? Pelo simples fato que o índice mostra que nos casos de estupros 91% são mulheres e que 99% de preso acusados de estupro são homens.. Cálculos de 1998 no EUA mostram a ocorrência de agressões sexuais a cada 6 minutos e que pelo menos uma a cada quatro mulheres sofreu contato sexual não consentido ainda na infância/adolescência.
543930_546242272061394_1851169026_n
As mulheres sofrem com o machismo TODOS os dias. De diversas formas. O homem é o privilegiado na nossa sociedade machista e patriarcal (sobre ser privilegiado e perpetuação de preconceitos, leia esse texto excelente) então a violência nem se compara. Ou seja, não dá para comparar coisas incomparáveis. O que não significa que queremos que homens continuem a ser estuprados. Ninguém devia passar por essa violência horrível. Tanto que o artigo 213 que fala de estupro foi alterado e o homem pode ser ativo ou passivo da ação: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. O que quer dizer que é reconhecido que eles também podem sofrer esse tipo de violência.
Só que existe sempre esse fenômeno de que quando se fala de alguma coisa as pessoas consideram que está anulando a outra. Por exemplo, quando se resgatam animais de rua, sempre tem alguém para falar “e as crianças abandonadas? por que não se importam com elas?”. Curiosamente são essas pessoas que reclamam tanto que normalmente não fazem nada para mudar nenhuma das questões.
Os homens que reclamam com esses tipos de comentários toda vez que surge uma campanha para desconstruir o machismo da nossa sociedade, são aqueles que não querem que o machismo acabe consciente ou inconscientemente. Porque estão felizes com os privilégios que recebem todos os dias e negam que existe uma cultura do estupro. Por que querem continuar a obrigar a parceira fazer sexo com eles porque “essa é a obrigação dela”. Por que querem continuar agarrando uma menina na balada. Por que querem continuar se aproveitando quando uma mulher está embriagada. Querem continuar a fazer todas essas violências e ter apoio da sociedade. Querem continuar a fazer e colocar a culpa toda na vítima.
Só que a cultura do estupro existe, tanto que exemplifiquei acima atos que acontecem no dia-a-dia. Infelizmente muitos desses atos sequer são vistos dessa forma, afinal na sociedade é normalizada a insistência, que o “não” significa “sim”, que se bebeu tanto agora tem que assumir as consequência e que se usa essas roupas ela quer. Não, ela não quer.

Você escolhe como ser feliz

happy-and-free

Infelizmente ainda temos como padrão para a maior parte da sociedade de que o certo é se formar, achar algum emprego convencional (e sempre procurar o melhor salário independente se você gosta ou não do cargo), comprar uma casa, um carro (e mil outras coisas caras), casar, ter filhos, aposentar e fim. Só que estamos vivendo em uma época que tudo isso está sendo desconstruído. Com a ajuda da internet temos os nômades digitais, as pessoas que trabalham de casa, as que têm os horários totalmente flexíveis e principalmente pessoas que sentem prazer com o trabalho.

Algo interessante nos relatos de pessoas que conseguiram se desprender desse sistema é que muitos comentam que isso é difícil e que tem algum segredo que elas nunca vão descobrir e por isso não vão alcançar esse sonho. Eu mesma fiz esse comentário mentalmente mais de uma vez. Pesquisava a história da pessoa atrás de um bilhete premiado da loteria que possibilitou toda essa liberdade. Até que decidi trilhar esse caminho. Sabe qual é o segredo? Não é fácil e tem horas que você sente que o melhor é desistir, mas não é. Persistir é a chave de tudo.

Até um tempo atrás estava seguindo esse plano convencional. Estudei, fiz curso pré-vestibular para entrar numa faculdade pública, entrei, estudei mais e me perdi. Não vi sentido em nada daquilo e larguei. Sabe o que mais ouvi? “Falta pouco, termina”; ” como você vai fazer sem faculdade?”; ” você vai entrar em outro curso né?”; “você tem que ser alguém”. Bom, que eu saiba, sou alguém, estando formada ou não.

Para espanto da maioria não quero fazer faculdade. Não sei se farei um dia, pode ser, mas não é meu objetivo. Na verdade desde que larguei a faculdade aprendi muito mais do que o tempo que fiquei lá. Não quero um emprego convencional, adoro ter horários alternativos. Não quero um carro. Não quero comprar mil coisas, eu não preciso de mil coisas. Quando percebi que tudo eram regras e que existia outra vida fora disso, minha mente abriu e foi como se finalmente tivesse me encontrado.

Se você quer isso também pra você, e aqui falo para qualquer coisa que fuja do padrão social e não necessariamente ‘emprego-faculdade’, vá em frente e ignore os discursos comuns, eles sempre vão existir. Só que da sua vida só você sabe.

Músicas feministas

Temos várias músicas feministas por ai e várias artistas debatendo esse assunto nas suas composições. Como ficaria uma lista imensa, resolvi escolher 5 grupos compostos por mulheres e com letras diretas e claras sobre temas chaves no feminismo. Fique a vontade para indicar mais grupos porque foi muito interessante ouvir tantos sons diferentes nesses últimos dias e ver tanta mulher emponderada.
Ps: Não vão ser analisadas as partes técnicas. O intuito é apenas compartilhar a letra e a mensagem da luta.
 
1- Putinhas aborteiras: Um coletivo anarcafeminista de Porto Alegre que faz músicas anarcofunk e anarcorap sobre temas políticos como as (milhares) de mortes de jovens na periferia pela polícia, a manifestação do passe livre, monogamia, o direito ao aborto, empoderamento da mulher e etc. Todas são muito interessantes e bem construídas; feitas por mulheres na luta. Letras que podem chocar, mas principalmente te fazem refletir e desconstruir.
Se é que é justo falar apenas de algumas músicas, darei destaque para a “Empodera” que tem uma das letras mais geniais que eu já ouvi:

“cada palavra opressora que ouve

suporta como um tiro de bala

estoura, rasga e penetra

até sangra, mas não me cala

cansei de suportar o que eu não quero carregar

me empondero, ocupo e falo sobre o que eu quiser falar”

A música “Feminista” aborda os padrões de beleza, aborto e masturbação :

“Em matéria de aborto

A gente sabe bem

O corpo é da mulher

E a decisão também”

2- Miojo feminista: Myka Poulain possui vários projetos diferentes para falar de assuntos feministas. Desde escrever para um blog até criar músicas paródias ou autorais. Infelizmente no soundcloud dela só existem poucas músicas e o aúdio é bem baixinho. A parte boa é que são muito boas e vale a pena aumentar o som e prestar atenção na letra e aprender um pouco.

Vou deixar dois trechos aqui, mas vai lá escutar que vale a pena.

Não culpe a vítima – paródia de “não se reprima”:

“elas não tem culpa do abuso que sofreram e precisam de paz

a sociedade é uma merda e isso só piora tudo

por isso pare, pense e culpe o agressor.

não culpe a vítima”

Os tempos já se vão – paródia de “dog days are over”:

“podemos ser o que quisermos, o que ja somos, enfim

voaremos na cidade

somos bem mais que 100

o corpo é nosso e as escolhas também.

Eu visto o que eu quero

ela age como quiser

temos uma luta que é pra toda mulher”

3- Pagufunk: é um coletivo do Rio de Janeiro de mulheres funkeiras que falam nas suas músicas sobre a vida na periferia. Falam da luta feminista, de racismo, revolução e etc.  As letras causam mais polêmicas (e os vídeos também) e a maioria dos homens acham um absurdo sem fim, mas para deixar claro, a luta não é voltado para os homens e sim para as mulheres. Para as mulheres se emponderarem. E elas mesmo comentaram na carta aberta que é voltado para um tipo específico de homem.

E lembre-se: a misândria é bem diferente da misogenia. A misândria nunca vai ser uma forma de opressão simplesmente porque é uma reação da vítima. Além de ser um ódio pela classe masculina e não para o homem individual e uma forma de defesa de tantos traumas sofridos pelas mulheres diariamente. Definições a parte, com as letras polêmicas muitos assuntos são debatidos:

A missão vai ser cumprida (Proibidão feminista):

“A nossa luta é todo dia contra o machismo, racismo e homofobia

E a missão vai ser cumprida

se chegar na favela com esse papo de machista

vou cortar sua pica

se ficar fazendo piadas racistas

vou cortar sua pica

se ficar esculachando as sapatas e travestis

não será perdoado”

Se prepara:

“se prepara, mona, que a gente tá na pista! Demorô

eu vivo revolucionando o meu cotidiano!

eu adoro, eu me amarro!

e as meninas tão boladas e não tão de bobeira.

Ja notaram que tem machista na esquerda, machista na direita.”

4-Amazonas acústicas: Se você ouvir algumas das músicas e se identificar sem entender a pegada de humor e ironia, melhor você ler mais sobre o assunto e mudar algumas atitudes. 3 das músicas disponíveis falam do “homem feminista”. Se você for homem, entenda que se você apoia a causa feminista você é um pró-feminista e não um feminista/feministo. Vocês são no máximo nossos aliados e não protagonistas da nossa luta, dessa forma são pró-movimento. Lógico que dentro do feminismo temos várias vertentes e algumas mulheres não se importam se você fala que é feminista, só que se algumas se importam, porque você que quer tanto ajudar a causa ainda insiste em usar um termo? Faça a sua parte e respeite.

Papai só pensa no papai:

“cotidiano da mulher

se repete todo dia

e tu vem me dizer

que não pode a misandria?

a marca roxa

sangue escorrendo

vizinho passou e viu

mas finge que não tá vendo”

Homem feminista:

“Vou na reunião com todo meu cinismo

se discordar de mim eu digo que é feminazismo

Eu sou um homem feminista

Não quero nem saber de denunciar um agressor

Não quero nem saber de fazer escracho para um estuprador

O que eu quero saber é o que você, mulher, vai fazer

por mim”

5-Dominatrix: Uma banda feminina de hardcore que existe desde 1995 e que mesmo passando por mudanças na sua composição continua a fazer shows até hoje e discutir abertamento o feminismo. Foi uma das precursoras do movimento Riot Grrrl no Brasil e já fez tour pela Europa e EUA. Inicialmente as músicas eram apenas em inglês, mas em 2009 elas lançaram o EP “Quem defende para calar” com todas as músicas em português.

Meu corpo é meu

“Puro é aquele que inocênte não se segurou e foi

Tentado a violentar e sem querer matou

Puta é aquela que se dá pra quem se dá sem o seu

Aval misógino, mas meu corpo é meu.”

Patriarchal Laws

“I’ll squeeze every drop of my blood to the revolution

Justify rape is to kill a girl twice.

Patriarchal laws there’s no freedom it’s just a sick world.”