Cantadas

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Eu estou trabalhando com atendimento ao cliente e no geral eu acho bem legal conversar com pessoas diferentes. As vezes incomoda quando não rola nem um “boa tarde, você tem o livro tal?” e respostas meio grossas e irritadas quando a resposta não é favorável. As vezes faço amizade, recomendo livro, me recomendam outros, falam da vida e fico feliz. Assim o dia segue.

Só que esses dias passei por uma situação triste. No meio do atendimento o rapaz começou a me cantar. Me chamou de bonita, passou a mão no meu braço, me chamou de amor e terminou com um “eu volto para te ver”. Não, não volte. Não quero te ver, não sou seu amor e não me importo se você me acha bonita ou não.

O pior de tudo foi não conseguir rebater. Pensei no emprego que precisava. Fiquei quieta, triste e surpresa. Uma sensação de impotência que me atingiu fortemente. No meio do meu dia, no meio do meu trabalho e lá estava um homem achando que tinha direito de falar o que bem quisesse, como eles sempre acham que têm.

Essa impotência no meu dia a dia me fez lembrar de uma conversa com algumas feministas onde foi perguntado se nós contrataríamos homens para trabalhos domésticos (faxina, cuidar de crianças ou idosos e etc) e todas falaram que não. Que não se sentem seguras com homens dentro de casa.

Pensei em todas as vezes que estava sozinha em casa e tive que receber algum homem para fazer reparo ou instalar internet + tv. Todas as vezes eu fico com medo. Todas as vezes eu mudo a roupa que estou. Todas as vezes eu aviso alguém quando o homem chega e quando vai embora. Todas as vezes tento me acalmar lembrando que a minha cachorra pode me proteger pelo menos um pouco. Toda vez respiro aliviada quando a presença masculina vai embora e eu fiquei bem.

Atravessar a rua quando vê um homem se aproximar, evitar contratar serviços, prender o cabelo, trocar a roupa, sentar do lado do corredor no transporte público…são todas ações ‘pequenas’ que fazemos todos os dias para sobreviver ao machismo. Infelizmente nada de novo aqui.

 

 

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Pela liberdade dos nossos pelos

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De uns tempos para cá tento desconstruir muitas coisas em mim. Com o feminismo minha mente abriu em vários sentidos. Entendi que amor próprio é algo lindo e que não é algo impossível de ter. Amo meu corpo, meu peso, minha barriga e..meus pelos.

Lidar com os pelos foi um processo maior do que eu esperava. Quando via foto de mulheres com seus pelos como nesse lindo ensaio eu achava extremamente libertador, mas quando é com a gente as coisas não são tão simples né?

Só que sempre tive pelo muito grosso e com crescimento rápido (coisa de 2x ao dia ter que depilar) e sempre encrava, coça, dá alergia e minha pele vive machucada. Minha compulsão de tira-los sempre foi alta. Não saia de casa sem gillete, pinça e um espelho. Por eles crescerem rápido e encravarem a única maneira que funcionou um pouco melhor foi depilar tudo com pinça, um processo de 4 horas (a cada 3 dias). Só que cansei.

Estava refém de algo que eu não sabia se eu não gostava ou se tinha sido ensinada a não gostar. Afinal nas revistas/tv só aparecem mulheres completamente depiladas (e magras, e loiras e brancas…), só ouvimos que mulher é delicada e tem que estar depilada porque pelo é coisa de homem  e quando esse argumento não funciona: que é anti-higiênico. Anti-higiênico…pensem um pouco..por que só é anti-higiênico quando são as mulheres que tem pelos? Os homens têm e exibem naturalmente. São eles todos sujos? Não gente. Pelo é natural. Homem ou mulher nós nascemos com eles. A diferença é que um padrão de beleza foi imposto e nós seguimos porque sofremos comentários agressivos e piadas o tempo todo.

Só que não preciso de ninguém ditando regras sobre o meu corpo, não quero mais evitar de sair de regata porque não estou depilada, ou usar calça mesmo no calor, cansei de deixar minha pele machucada e vermelha só para não me apontarem o dedo na rua, então decidir testar, passar um mês sem depilar e me entender com eles.

Foi um mês extremamente interessante. Tiveram dias que me senti feia e dias que queria exibir por ai a liberdade dos meus pelos. Essa oscilação toda de sentimentos junto com os questionamentos me fizeram muito bem. Sem contar a minha pele. Minha pele ficou saudável de uma maneira que eu sequer lembrava que ela já tinha sido um dia.

Hoje tenho uma relação muitissimo melhor com eles. Deixo crescer naturalmente quando estou afim e tiro quando quero. Minha pele está melhor, minha neurose diminui bastante e me sinto cada vez melhor comigo mesmo. Se libertar e se amar é lindo e sempre vão existir pessoas apontando e criticando. Dói, é difícil, mas depois que conquistamos é nosso e ninguém tira :)

Ps: A minha ideia não é que todas deixem os seus pelos crescerem porque só assim vão se amar por completo. Não quero ditar regras nenhuma. Se você é feliz se depilando, muito bom! Se você é feliz com pelos, muito bom também. O que importa é se sentir bem, ser livre para ser o que quiser. Aliás, se seu parceiro tenta ditar regras sobre seu corpo..caia fora. O corpo é seu, só seu.

Relacionamentos abusivos – como identificá-los?

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Esse texto é direcionado para as mulheres, minhas amigas e irmãs. Um apelo, uma ajuda, um guia, uma força, um abraço.Relacionamento abusivo é extremamente violento e prejudicial. Acaba com a auto estima, com a segurança e com a felicidade. Fere fisicamente, emocionalmente e psicologicamente. Viramos reféns de alguém. Alguém que manipula, machuca e nos prende com a clássica desculpa que é em nome do amor. Não, não é. Amor não é isso.

É um namoro abusivo se: ele é violento, te machuca, empurra, bate, quebra suas coisas, ameaça pessoas próximas ou se auto flagela. Se te força em algum tipo de ato sexual, seja por meio de violência ou por chantagem (algo que acontece muito muito muito) e faz questão de brigar ou ficar chateado demais quando você não quer fazer algo, se não te respeita e faz de tudo para que se sinta culpada. Praticamente um relacionamento que se alimenta da fragilidade do seu estado emocional, então vai te manter o máximo possível insegura e culpada.

Se o seu namorado te controla, ele é abusivo. Ou seja, se ele que decide que roupa você pode ou não usar, com quem você pode ou não sair, o que você pode ou não fazer, como você deve agir e falar, não te dá privacidade, mexe no seu celular, facebook e email. Inventa desculpas e mentiras quando não quer ficar com você e faz chantagem/briga para que você o veja sempre que ele quiser, critica seu corpo, suas ações e opiniões, não gosta dos seus amigos e nem que você saia com eles, te humilha, faz ameaças de se machucar ou se matar quando você demonstra querer terminar o relacionamento, te transfere a culpa de tudo, te pune, é muito ciumento e etc.

Que fique claro: ele não precisa ser agressivo para fazer NENHUMA dessas ações. Pode fazer por meio de chantagem, de criticas constantes (e ai derruba sua auto estima e suas relações) e brigas diárias.
Se o seu namorado faz QUALQUER uma das coisas citadas acima (ou que você percebeu que são parecidas e não estão listadas – porque são muitas as maneiras dele ser abusador) você pode estar em um relacionamento abusivo e nada saudável.
Em um relacionamento bacana as pessoas são livres, não são objetos de ninguém. Não existe posse e nenhum dos dois tem as vontades acima do outro. Sua privacidade, vontades e desejos são direitos seus.
Muitos homens acreditam que as mulheres têm que fazer o que eles querem e que é para isso que elas servem. Que precisam cuidar deles, fazer o que desejam, servi-los e fim. As coisas não são assim. Não somos bonecas, não somos objetos, não somos deles. Não temos que fazer nada que não queremos.

Abrir mão da nossa liberdade e vontade “por amor”, não é amor. Ele está te controlando e usando algo bonito como desculpa. Quem ama não controla. Quando ele diz que tem cíumes porque te ama, também é mentira. Usa isso apenas para te controlar em tudo que faz.

Eu sei que você gosta dele e sei que acredita que não vai ser sempre assim, que vai conseguir muda-lo. Sinto te informar, ele é assim e vai ser assim. Você pode estar correndo risco, meu bem. E não merece todo esse sofrimento. Você merece amor de verdade. Sei que não vai ser fácil, mas seja forte! Pense sobre isso e espalhe para suas amigas, infelizmente isso é algo que acontece com uma frequência extremamente grande.

Lembre-se: NAO É SUA CULPA. Sério.

Campanha “Um é muito”

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Uma campanha está sendo feita pelo governo americano para diminuir o número de estupros e abusos contra mulheres, especificamente jovens, estudantes e mulheres entre 16-24 anos. Nela é abordado coisas que deveriam ser básicas e óbvias. De que a mulher NUNCA tem culpa e não deve em hipótese alguma ser culpada. Que quando a vítima não diz SIM ou não tem como dizer não, não significa que ela consentiu.
Logo no começo do vídeo diz que os abusos ocorrem em festas, faculdades, colégios e bares. Só que o número de casos dentro de casa por pessoas conhecidas é alarmante. A violência sexual está perto de nós e não apenas no caso clássico de beco escuro e uma arma na sua testa. O abuso acontece por familiares, amigos, namorados, maridos. Pessoas que você conhece e confia.
O dolorido desses assuntos é que sempre nos deparamos com comentários de homens reclamando “e os homens? homens também sofrem estupro”, “as mulheres também estupram, por que ninguém fala isso?”, “os homens sofrem”. Primeiramente o video da campanha em nenhum momento disse que “homens não são estuprados”. No próprio site eles explicam o objetivo da campanha, mostram os dados das ocorrências e terminam com “apesar de homens serem um número menor de sobreviventes, não são menos importantes”. E por que o foco são as mulheres? Pelo simples fato que o índice mostra que nos casos de estupros 91% são mulheres e que 99% de preso acusados de estupro são homens.. Cálculos de 1998 no EUA mostram a ocorrência de agressões sexuais a cada 6 minutos e que pelo menos uma a cada quatro mulheres sofreu contato sexual não consentido ainda na infância/adolescência.
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As mulheres sofrem com o machismo TODOS os dias. De diversas formas. O homem é o privilegiado na nossa sociedade machista e patriarcal (sobre ser privilegiado e perpetuação de preconceitos, leia esse texto excelente) então a violência nem se compara. Ou seja, não dá para comparar coisas incomparáveis. O que não significa que queremos que homens continuem a ser estuprados. Ninguém devia passar por essa violência horrível. Tanto que o artigo 213 que fala de estupro foi alterado e o homem pode ser ativo ou passivo da ação: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso”. O que quer dizer que é reconhecido que eles também podem sofrer esse tipo de violência.
Só que existe sempre esse fenômeno de que quando se fala de alguma coisa as pessoas consideram que está anulando a outra. Por exemplo, quando se resgatam animais de rua, sempre tem alguém para falar “e as crianças abandonadas? por que não se importam com elas?”. Curiosamente são essas pessoas que reclamam tanto que normalmente não fazem nada para mudar nenhuma das questões.
Os homens que reclamam com esses tipos de comentários toda vez que surge uma campanha para desconstruir o machismo da nossa sociedade, são aqueles que não querem que o machismo acabe consciente ou inconscientemente. Porque estão felizes com os privilégios que recebem todos os dias e negam que existe uma cultura do estupro. Por que querem continuar a obrigar a parceira fazer sexo com eles porque “essa é a obrigação dela”. Por que querem continuar agarrando uma menina na balada. Por que querem continuar se aproveitando quando uma mulher está embriagada. Querem continuar a fazer todas essas violências e ter apoio da sociedade. Querem continuar a fazer e colocar a culpa toda na vítima.
Só que a cultura do estupro existe, tanto que exemplifiquei acima atos que acontecem no dia-a-dia. Infelizmente muitos desses atos sequer são vistos dessa forma, afinal na sociedade é normalizada a insistência, que o “não” significa “sim”, que se bebeu tanto agora tem que assumir as consequência e que se usa essas roupas ela quer. Não, ela não quer.

Músicas feministas

Temos várias músicas feministas por ai e várias artistas debatendo esse assunto nas suas composições. Como ficaria uma lista imensa, resolvi escolher 5 grupos compostos por mulheres e com letras diretas e claras sobre temas chaves no feminismo. Fique a vontade para indicar mais grupos porque foi muito interessante ouvir tantos sons diferentes nesses últimos dias e ver tanta mulher emponderada.
Ps: Não vão ser analisadas as partes técnicas. O intuito é apenas compartilhar a letra e a mensagem da luta.
 
1- Putinhas aborteiras: Um coletivo anarcafeminista de Porto Alegre que faz músicas anarcofunk e anarcorap sobre temas políticos como as (milhares) de mortes de jovens na periferia pela polícia, a manifestação do passe livre, monogamia, o direito ao aborto, empoderamento da mulher e etc. Todas são muito interessantes e bem construídas; feitas por mulheres na luta. Letras que podem chocar, mas principalmente te fazem refletir e desconstruir.
Se é que é justo falar apenas de algumas músicas, darei destaque para a “Empodera” que tem uma das letras mais geniais que eu já ouvi:

“cada palavra opressora que ouve

suporta como um tiro de bala

estoura, rasga e penetra

até sangra, mas não me cala

cansei de suportar o que eu não quero carregar

me empondero, ocupo e falo sobre o que eu quiser falar”

A música “Feminista” aborda os padrões de beleza, aborto e masturbação :

“Em matéria de aborto

A gente sabe bem

O corpo é da mulher

E a decisão também”

2- Miojo feminista: Myka Poulain possui vários projetos diferentes para falar de assuntos feministas. Desde escrever para um blog até criar músicas paródias ou autorais. Infelizmente no soundcloud dela só existem poucas músicas e o aúdio é bem baixinho. A parte boa é que são muito boas e vale a pena aumentar o som e prestar atenção na letra e aprender um pouco.

Vou deixar dois trechos aqui, mas vai lá escutar que vale a pena.

Não culpe a vítima – paródia de “não se reprima”:

“elas não tem culpa do abuso que sofreram e precisam de paz

a sociedade é uma merda e isso só piora tudo

por isso pare, pense e culpe o agressor.

não culpe a vítima”

Os tempos já se vão – paródia de “dog days are over”:

“podemos ser o que quisermos, o que ja somos, enfim

voaremos na cidade

somos bem mais que 100

o corpo é nosso e as escolhas também.

Eu visto o que eu quero

ela age como quiser

temos uma luta que é pra toda mulher”

3- Pagufunk: é um coletivo do Rio de Janeiro de mulheres funkeiras que falam nas suas músicas sobre a vida na periferia. Falam da luta feminista, de racismo, revolução e etc.  As letras causam mais polêmicas (e os vídeos também) e a maioria dos homens acham um absurdo sem fim, mas para deixar claro, a luta não é voltado para os homens e sim para as mulheres. Para as mulheres se emponderarem. E elas mesmo comentaram na carta aberta que é voltado para um tipo específico de homem.

E lembre-se: a misândria é bem diferente da misogenia. A misândria nunca vai ser uma forma de opressão simplesmente porque é uma reação da vítima. Além de ser um ódio pela classe masculina e não para o homem individual e uma forma de defesa de tantos traumas sofridos pelas mulheres diariamente. Definições a parte, com as letras polêmicas muitos assuntos são debatidos:

A missão vai ser cumprida (Proibidão feminista):

“A nossa luta é todo dia contra o machismo, racismo e homofobia

E a missão vai ser cumprida

se chegar na favela com esse papo de machista

vou cortar sua pica

se ficar fazendo piadas racistas

vou cortar sua pica

se ficar esculachando as sapatas e travestis

não será perdoado”

Se prepara:

“se prepara, mona, que a gente tá na pista! Demorô

eu vivo revolucionando o meu cotidiano!

eu adoro, eu me amarro!

e as meninas tão boladas e não tão de bobeira.

Ja notaram que tem machista na esquerda, machista na direita.”

4-Amazonas acústicas: Se você ouvir algumas das músicas e se identificar sem entender a pegada de humor e ironia, melhor você ler mais sobre o assunto e mudar algumas atitudes. 3 das músicas disponíveis falam do “homem feminista”. Se você for homem, entenda que se você apoia a causa feminista você é um pró-feminista e não um feminista/feministo. Vocês são no máximo nossos aliados e não protagonistas da nossa luta, dessa forma são pró-movimento. Lógico que dentro do feminismo temos várias vertentes e algumas mulheres não se importam se você fala que é feminista, só que se algumas se importam, porque você que quer tanto ajudar a causa ainda insiste em usar um termo? Faça a sua parte e respeite.

Papai só pensa no papai:

“cotidiano da mulher

se repete todo dia

e tu vem me dizer

que não pode a misandria?

a marca roxa

sangue escorrendo

vizinho passou e viu

mas finge que não tá vendo”

Homem feminista:

“Vou na reunião com todo meu cinismo

se discordar de mim eu digo que é feminazismo

Eu sou um homem feminista

Não quero nem saber de denunciar um agressor

Não quero nem saber de fazer escracho para um estuprador

O que eu quero saber é o que você, mulher, vai fazer

por mim”

5-Dominatrix: Uma banda feminina de hardcore que existe desde 1995 e que mesmo passando por mudanças na sua composição continua a fazer shows até hoje e discutir abertamento o feminismo. Foi uma das precursoras do movimento Riot Grrrl no Brasil e já fez tour pela Europa e EUA. Inicialmente as músicas eram apenas em inglês, mas em 2009 elas lançaram o EP “Quem defende para calar” com todas as músicas em português.

Meu corpo é meu

“Puro é aquele que inocênte não se segurou e foi

Tentado a violentar e sem querer matou

Puta é aquela que se dá pra quem se dá sem o seu

Aval misógino, mas meu corpo é meu.”

Patriarchal Laws

“I’ll squeeze every drop of my blood to the revolution

Justify rape is to kill a girl twice.

Patriarchal laws there’s no freedom it’s just a sick world.”

Marcha das Vadias e a participação dos homens

Kelsen fernandes

Foto de Kelsen fernandes

Fui na marcha das vadias em SP no qual o tema era  “Quem cala não consente”. Foi a minha primeira participação e fiquei espantada quando cheguei no vão do MASP.
Tinham tantos homens que cheguei a questionar se a concentração da marcha estava em outro local. Passei pelo vão e encontrei um vestido de saia, alguns de batom, outro escrito “vadia” no peito e alguns com cartazes.
Tem muitas feministas que não gostam da presença de homens lá, não se sentem a vontade e a marcha é um dia para a mulher se sentir a vontade. Outras acham que não tem problema, que com a presença deles vai fazer outros pararem pra pensar na violência que o machismo causa todos os dias.
Muitas enxergam uma diferença entre pró-feminista e feministo. Feminsto é o homem que quer se apropriar do movimento, que palpita, se acha mais certo sobre o assunto do que as mulheres. Aí tem os pró-feministas, que entendem que não são protagonistas e sim pró-movimento, que podem cooperar de algumas formas, mas nunca nos silenciando. Por isso quando um homem bate no peito e fala que é feminista e se ofende quando falamos “não, não é” normalmente no fundo ele é um feministo. Ele não quer ser um aliado, não quer ver seu papel ali.
Por isso que na marcha tantas mulheres se ofenderam com vários ‘aliados’ que estavam lá. O papel deles era ficarem quietos, marcharem ao nosso lado e ajudassem quando pedissemos. Não era usando fantasia, passando batom ou gritando as músicas que nos empoderam. Isso não faz sentido algum, é ridículo e ofende.
Quando você, homem, grita conosco “a porra da buceta é minha”. Não é legal e não é nos dar apoio. A “porra da buceta” é das mulheres e não sua. Quando você escreve “vadia” no peito nós nos sentimos ridicularizadas porque a conotação negativa de “vadia” somos nós que recebemos no dia a dia. Quando você segura cartaz com “chega de cantadas” é ofensivo porque somos nós que sofremos com o machismo, nós que temos medo quando andamos na rua, nós que atravessamos a rua para fugir de assédio. Nós.

Lulu/Tubby e as brigas que geram

Li posts excelentes sobre o aplicativo Lulu de varias feministas. Vi opiniões um pouco diferentes, mas todas tinham algo em comum: não apoiam o aplicativo e acham que ele só piora a falta de igualdade na sociedade.

Algumas confessaram achar interessante ver os opressores no papel de oprimidos. Sim, eu também achei interessante. Achei interessante ver os mesmos homens machistas que falam “te pego/gostosa/delicia” quando você passa na rua, achar extremamente absurdo o Lulu. Sim, ele é absurdo.

Você fazer comentários sobre o corpo de uma mulher sem ela te dar autorização também é absurdo (e nem vou prolongar os mil outros absurdos que o machismo comete), mas não é por achar interessante que eu apoio a existência do mesmo.

O fato é que agora surgiu um aplicativo para ter um revanchismo sobre o revanchismo (acho que isso não vai parar nunca). O tal Tubby que estréia essa semana vai dar notas e hashtag sobre a performace sexual da mulher. Ridículo também.

Só que ao ler os comentários temos mulheres bravas porque nós mulheres estamos indignadas com o aplicativo e com o peso das hashtags e que não agimos da mesma maneira quando foi ao contrário. Temos homens falando que agora é a vez deles de falarem o que quiserem e nós aceitarmos caladas (essa posição deles não me soa como novidade, apesar deles tratarem dessa forma).

Mulherada, é sério isso? Não queremos nenhum dos dois aplicativos simplesmente porque não gostamos da objetificação de nenhuma forma. Não gostamos da desigualdade também. Não é porque estamos indignadas e lutando para que todas possam se descadastrar que quando era o Lulu nos criamos nossa conta e demos notas por ai, pelo contrário, várias de nós escreveram o quanto tudo isso era doentio.
Então vamos todos nos unir? Ou pelo menos pensar um pouco antes?

A dor de confiar

Outro dia ao acordar li a notícia  da jovem que se suicidou após um vídeo íntimo circular pelo whatsapp. Infelizmente algo que acontece com cada vez mais frequência.

Fiquei triste e dessa vez me recusei a ler os comentários. Já sei como grande parte vai ser. Eles estavam lá no caso da Fran e me deixaram (mais uma vez) sem esperança e confusa.

Mesmo que eu saiba tão claramente que a vítima leva a culpa na sociedade machista que vivemos, eu não consigo entender como a mente dessas pessoas funcionam.

Não sei se as pessoas vão dar um descanso nesse caso já que ele terminou de forma (mais) trágica, mas, sei que vão ter piadas por ela ter feito sexo com duas pessoas (como se ninguém fizesse isso) e dela ser “burra” por não ter aprendido que não se deve filmar essas coisas.

Serio? Burra? Li uma vez que é triste que a confiança em alguém signifique burrice. É bem isso né? O que pregam é que você não deve confiar nunca. Não importa quem seja. Além de que sua vida sexual também deve seguir um padrão. Acho que só acham certo se for a posição papai-e-mamãe e entre um homem e uma mulher. Como se nós humanos não fossemos tão diferentes e complexos; com gostos e desejos diversificados.

Não existe normalidade, afinal o que é dito como normal para você pode ser completamente estranho para outra pessoa. Então porque não aceitamos logo as mil (deliciosas) diferenças? Aceitar geraria muito menos dor e muito mais felicidade. Por enquanto, espero que as pessoas sintam um pouco mais de empatia pelas vítimas e parem de criticá-las. Elas não estão erradas, nunca estão. O erro está na pessoa que circulou o video, que liberou a intimidade de alguém pela internet. E  que mais um caso não acabe com um fim da vida de mais uma pessoa inocente.

Bem consigo mesma

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Minha casa nunca fica vazia, algo que tem seu delicioso lado bom. Então aproveitei esse raro momento de solidão e transformei o tal vazio em algo libertador.

Liguei a música bem alta, naquela altura que ninguém consegue conversar, mas que eu escuto a letra lá do último cômodo da casa como se estivesse do lado do rádio.

Tirei meu pijama e coloquei meu biquini. Qual? Podia ser qualquer um, mas optei por aquele que acho um pouco menor e que “meu corpo não cai bem”, como se corpo tivesse que cair bem em alguma coisa e não apenas ser.

Me olhei no espelho e vi todos aqueles pedacinhos que não estavam de acordo com a tal ditadura da beleza. Sempre falei que não estava nem ai para o que os outros falavam, mas me vi inúmeras vezes indo dormir com fome para acabar com a barriga. Ou colocar uma roupa que eu adoro e tirar ela tristemente porque mostrava minhas gordurinhas. Ou colocar calça comprida no calor porque a depilação não estava super em dia (algo que provavelmente só eu enxergava no meio da minha neurose).

Me olhei e me amei. Sentei sem segurar a barriga mesmo e fiquei encarando. Até falei com ela em um diálogo tímido “oi barriga, falam que não devo gostar de você, mas no momento sinto amor”. Brega, eu sei, mas, verdade. Eu, pela primeira vez, amei minha barriga. E assim fui olhando para cada “defeitinho”.

Deitei no chão do quintal para tomar sol. Estiquei os braços e lembrei que não tinha depilado ainda. Dei risada e me senti leve.

Ninguém aqui em casa ligaria para isso, mas eu sim. Eu me sinto incomodada. Não que eu fiquei impecável dentro de casa, mas, certas coisas as pessoas poderiam achar “feio” demais e eu ficaria constrangida com os olhares (imaginários). Na verdade quem achava feio era eu, quem lançava olhares para dentro de mim era eu.

Agora, sozinha e a vontade, sou eu.

E entendi.

Por uma vida sem regras dos outros e as suas próprias.

Com isso tudo, fica a dica do belíssimo trabalho da negahamburguer , ela desenha a mulher real, sem grilos, sem neuras e principalmente: sem regras.